Construir um negócio por turnos, com a Irina e o nosso filho

Ser pai ensinou-me uma coisa muito depressa: o tempo não é infinito.

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Paternidade

Freelancing

IA

Vida

O Tiago a caminhar debaixo das árvores com o filho ao ombro, os dois a olhar o caminho.

Num momento estou a mudar uma fralda, no seguinte a fazer o almoço, depois a lavar a loiça, enquanto uma pessoa pequenina que roubou um carrinho de brincar sabe-se lá de onde abre todas as gavetas da cozinha para ter a minha atenção. É uma vida engraçada, exigente e muito recompensadora. Podes perguntar quando é que trabalho enquanto ele está acordado, e a resposta honesta é que não trabalho. É por isso que somos dois, a Irina e eu: quando um de nós está a trabalhar, o outro está de turno com o bebé.

Antes de sair

Anos antes de tudo isto, fiquei curioso sobre como cuidar a sério do corpo e da mente, o sono, a comida, as coisas que um curso de engenharia nunca te ensina. Em 2020 comecei finalmente a meditar todos os dias e a fazer yoga todas as semanas, mudei a forma como comia, e mais tarde deixei de comer carne.

Depois o meu mundo ficou maior. Fui a um retiro de yoga em Espanha que mexeu comigo mais do que esperava, subi a montanha do Pico, nos Açores, com o Circle, o ginásio de bem-estar que frequentava em Lisboa, viajei sozinho para o México pela primeira vez, e desci a Costa Vicentina de carro com amigos que tinha conhecido nesse ginásio. Nessa viagem, no fim de 2022, conheci a Irina.

Das 9 às 5 ao freelancing

No fim de 2022 deixei o meu trabalho de frontend developer, depois de quase cinco anos na mesma startup. Aconteceu no Sacred Soul Fest, num momento tão intenso que comecei a chorar, e algures no meio dessas lágrimas percebi que já não queria estar onde estava. Gostava do meu chefe, e até gostava do sítio. Mas perguntei-me se daqui a cinco anos queria estar exatamente onde estava, e a resposta foi não.

Tinha muito pouco poupado e nenhum plano B. Abriram-se duas portas quase ao mesmo tempo: um trabalho numa empresa fundada por um antigo professor meu, com Python e React, e um curso intensivo para ser professor de yoga. Nenhuma me parecia certa. A primeira era mais do trabalho que não me enchia a alma, e a segunda era deixar para trás dez anos de engenharia informática, cinco na universidade e cinco a escrever código, a resolver problemas e a trabalhar em equipa.

Por isso procurei um terceiro caminho. Já queria construir mais do que código, e sabia que o que construía podia ter melhor aspeto, só não sabia como. Entrei na Flux Academy, aprendi design e branding, descobri o Webflow, e em 2023 fiz o meu primeiro site para alguém deste mundo. Não estava pronto para isso.

As pessoas dizem-te que deve ser ótimo ser o teu próprio chefe e trabalhar quando te apetece, em vez das nove às cinco. No início era mais das oito da manhã às dez da noite. A parte técnica era só uma peça, porque de repente também tive de aprender a vender, a escrever propostas e faturas, a tratar da parte legal, a encontrar clientes e a ser visto online. Era ingénuo em quase tudo, porque trabalhar para uma empresa e trabalhar para ti são dois trabalhos diferentes.

E a parte mais difícil não tinha nada a ver com o trabalho. Era o dinheiro, e aprender a viver sem saber o que o mês seguinte ia trazer.

Depois chegou o nosso filho

No meio de tudo isto, a Irina e eu tivemos o nosso filho, e a vida deu a volta uma segunda vez. O freelancing já era difícil, e agora era freelancing e ser pai ao mesmo tempo, o que parecia uma missão quase impossível.

Precisamente quando eu precisava de mais tempo, o tempo começou a fugir-me. Havia uma vida nova para cuidar, e isso vem primeiro.

Ser pai ensinou-me uma coisa muito depressa: o tempo não é infinito.

Ele também mudou a minha forma de meditar. Sentava-me todas as manhãs, mas quando trabalho até tarde e acordo com ele já cheio de energia, não há meia hora de silêncio à minha espera. Por isso agora encontro-a noutro lado, na pessoa mais lenta, mais paciente e mais contemplativa que ele me ensina a ser todos os dias. A prática continua dentro de mim, e a curiosidade que começou há quase dez anos também: mexer o corpo, dormir bem, comer bem e ler.

O sono é o que mais protejo, porque as noites são muitas vezes o único tempo em que consigo trabalhar. Durante o dia a Irina e eu revezamo-nos, um a brincar com o nosso filho e o outro à secretária, e por isso o trabalho escorrega para a noite. Afasto os ecrãs a partir de certa hora sempre que posso, e nunca pego no telemóvel logo de manhã, para o dia não começar com o gatilho de outra pessoa. Quando trabalho até tarde, o modo noturno do ecrã não chega, por isso uso óculos laranja que bloqueiam quase toda a luz azul, e durmo com fita na boca e um pequeno dilatador nasal que me deixa respirar muito melhor.

Escolher como gastar as horas

Por isso o único conselho que continuo a dar a mim próprio é escolher com cuidado como gastas o tempo que tens, todos os dias.

Na noite anterior, escrevo as coisas mais importantes do dia seguinte. Leva cinco minutos, e de manhã a cabeça já sabe o que importa, por isso não perco a primeira hora a decidir por onde começar.

E nunca compares o teu capítulo 1 com o capítulo 60 de outra pessoa. Toda a gente que vês online está num ponto diferente da vida e do trabalho, e a única comparação que ajuda é com quem eras há um ano.

Sobre o medo

O que esse ano me ensinou é que estamos sempre a uma decisão de mudar de direção, e que é muito fácil esquecê-lo. Trabalho, duas horas no trânsito, casa exausto, um ecrã para desligar, e o ciclo recomeça na manhã seguinte. O dinheiro importa, e eu tinha muito pouco. Mas quando a coragem é um bocadinho maior do que o medo, o passo seguinte aparece, e para mim esse passo desbloqueou quase tudo o que veio depois.

Não deixes que o medo te impeça de ser tu: o medo do desconhecido, de não seres suficiente, do que os outros vão pensar. Deixa que a vontade de crescer seja um bocadinho maior do que tudo isso, mesmo nos dias em que é só um bocadinho.

Não escrevo isto como alguém que tem as respostas. Estou tão perdido e com tanto medo como tu, e acho que ninguém sabe de verdade. Aprendemos enquanto caminhamos pelo caminho que escolhemos.

Onde entra a IA

Este ano a IA mudou outra vez o meu trabalho, e provavelmente o de toda a gente. Nada do que aprendi com o Webflow foi desperdiçado, porque nunca começamos do zero: a estratégia, as bases de design e os anos de código são exatamente o que me deixa dirigir bem a IA.

O que antes me levava um dia inteiro à mão leva agora uma hora, e a maior parte dessas horas voltou para o meu filho.

Escrevi mais sobre as ferramentas, e sobre como as escolher para o teu site, em Webflow? IA? Completamente analógico?.

O que isto quer dizer se trabalharmos juntos

Viver assim mudou a forma como trabalho com clientes. Muitas das pessoas para quem construo estão onde eu estive: deixaram algo estável para fazer o seu próprio caminho, algumas têm família, e o site é mais uma coisa numa lista muito comprida.

Sei o que é construir algo teu com muito pouco tempo, por isso acompanho o teu ritmo, e tirar-te esse peso dos ombros é a maior parte do meu trabalho.

A maior parte das pessoas que conheço em encontros, retiros e festivais para famílias passou anos a construir o que oferece: música, terapia de som, dança, massagem, algo feito com as mãos. Pedir-lhes que também passem as noites em frente a um site gasta exatamente a energia de que o trabalho delas precisa. Conheço esse mundo por dentro, e tenho dez anos de trabalho técnico atrás de mim, por isso consigo fazer o site inteiro com elas, da primeira conversa ao dia em que vai para o ar.

“Mostrou ser uma pessoa extremamente paciente, sempre a acompanhar o meu ritmo e a respeitar todas as minhas escolhas.” Anica Cortez

Como o bambu

Há um bambu que passa os primeiros anos quase invisível. Durante quatro anos cresce debaixo da terra, a fazer as raízes tão fortes quanto possível, e só no quinto ano sai cá para fora, e aí cresce mais depressa do que tudo à volta.

  1. Ano 1
  2. Ano 2
  3. Ano 3
  4. Ano 4
  5. Ano 5
Durante quatro anos parece que não está a acontecer nada. O quinto ano assenta neles.

Foi assim que estes anos se sentiram. Quase um ano e meio a aprender este mundo novo, a aprender a ser pai, e muito poucos projetos para mostrar. Agora, em 2026, as raízes estão lá, e o trabalho está a começar a chegar.

Uma primeira versão deste post foi escrita no LinkedIn. Esta é mais longa, e mais honesta sobre as horas.

Se alguma coisa disto soa a ti, diz olá.

Uma mensagem ou um áudio chega.

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